João Caetano
em
Aug 10, 2021
A série que a Netflix ainda não fez

Para você que maratonou Manhunt: Unabomber, completou as duas temporadas de Mind Hunter, acha Numb3rs genial, concorda que Silêncio dos Inocentes é uma obra prima, vem aí Geographic Profiler, sua nova série.

Seguindo os passos de CSI: Crime Scene Investigation, que fez o maior sucesso contando a história de cientistas-policiais capazes de analisar materiais deixados na cena do crime. E chegou a um multiverso com CSI: Miami, CSI: NY, que virou video-game, passando pelo tecnológico CSI: Cyber até alcançar seu ápice em CSI: Nova Iguaçu.

Todas essas séries têm em comum o formato, mostram jeitos inovadores para se investigar um crime. Sendo que em quase todas elas existe um personagem especialista que se junta à polícia para reabrir casos e, dessa vez, encontrar os criminosos.

Geographic Profiler é uma série inspirada na história de Brandon Jumonville, especialista em sistemas geográficos que se juntou à polícia Baton Rouge após o assassinato de seu primo.

Com potencial para somar muitas temporadas, Geographic Profiler tem uma sólida fórmula de sucesso. Uma fórmula é tão boa que unidades de inteligência recorrem a ela para identificar células terroristas, o FBI a usa para encontrar serial killers, sendo também usada para descobrir esconderijos de tubarões.

A cada episódio vamos entendendo um pouco mais sobre como a fórmula funciona. Mas, no geral, ela explica o comportamento de predadores, com cada variável dessa equação falando coisas no espaço e o espaço entre as coisas.

Repare na letra da música Hey Joe, do Rappa:

Hey Joe

Onde é que você vai

Com essa arma aí na mão

Está claro que a pessoa conhece o cidadão armado ao ponto de chamá-lo pelo nome. É exatamente isso que os criminosos buscam evitar, alguém que possa reconhecê-los em sua prática criminosa. Portanto, é possível inferir que o bandido não vive por perto da região onde o crime aconteceu, mas também não se esconde muito longe ao ponto de complicar sua fuga. Chegamos então a uma área de diferentes probabilidades.

O mapa acima é uma demonstrações de como essas áreas aparecem no mapa, quanto mais quente a cor, maior a chance de o esconderijo ser naquele local. Esse sistema é usado no curso de detetive geográfico da Universidade Estadual do Texas.

É como se o esconderijo do criminoso fosse o centro da rosquinha, o lugar onde ele evita cometer seus crimes, e o exterior da rosquinha a área longe demais do esconderijo.

O ex-policial Kim Rossmo é o inventor dessa fórmula e já recorreu a ela várias vezes para solucionar crimes. Ele interpreta as evidências como se cada lugar tivesse sua coisa.

Num dos casos a polícia sabia que o criminoso tinha usado um cartão de crédito da vítima para comprar cigarros, uma camiseta, uma caneta e bebidas, Rossmo concluiu que essas compras são tipicamente feitas perto de casa. O cerco ao criminoso se fechou a polícia pode concentrar bem mais esforços naquela área, onde finalmente encontraram digitais que batiam com as presentes nos crimes, chegando ao criminoso.

Como num CSI invertido, nessa linha de investigação o mais importante é focar nas informações sobre o criminoso fora da cena do crime, pois elas vão apontar para seu esconderijo.

Características dos criminosos definem sua área de atuação. Como a idade, criminosos juvenis agem mais perto de suas casas, os assaltantes se deslocam mais do que simples ladrões, sendo que o lugar onde um corpo é jogado fica tão distante da casa do criminoso quanto da vítima. Crimes contra a propriedade são mais comuns em fases mais jovens, indo para violência contra pessoas a partir dos 18 anos. Há um limite de idade também, com a maior parte dos crimes sendo cometidos por pessoas até 30 anos. Fatores como prisão e morte ajudam a manter a faixa etária mais baixa.

As meninas se envolvem menos em crimes, muito por serem mais supervisionadas por suas famílias durante a juventude. Os lugares também influenciam a atividade criminosa, quanto maiores, densos, desordenados, impessoais, mais violentos.

Agora que você entendeu bem a fórmula, vamos aos episódios de Geographic Profiler.

Episódio 1: O artista desconhecido

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A cidade amanhece com uma interferência artística em algum lugar. As obras são impactantes, chamando a atenção da mídia e da população sem que ninguém se apresente como autor.

Lugares onde estão seus grafites se valorizam, mapas turísticos são vendidos para quem deseja peregrinar entre as obras, um grande sucesso sem nome nem rosto.

Programas de fofoca discutem quem pode ser, artistas tuítam dizendo que não são eles. É hora de uma interferência radical, é hora de chamar o Geographic Profiler.

O processo é sempre o mesmo, a cada episódio vamos entendendo como o quebra-cabeças é montado.

Todos os endereços, de todas as interferências do artista são mapeados, junto com a data em que foram criados e a horário mais provável que tenha acontecido.

Agora vamos analisar o mapa. Quais são as distâncias entre os pontos, quanto tempo de viagem entre eles? Que tipo de locais são esses, residenciais nobres, populares, comerciais, empresariais?

Datas e horários em que as interferências ocorreram, dias úteis, finais de semana, manhã, tarde, noite, alta madrugada.

De que forma esses lugares são acessíveis nesse horário, é possível chegar a eles por transporte público, bicicleta, apenas carro ou moto? Existem endereços próximos que sejam emblemáticos, delegacias, hospitais, torres empresariais? Afinal, por que entre tantos outros lugares o artista escolheu estes? Ele realmente escolheu ou parece ao acaso, fruto das circunstâncias?

Agora está ficando mais claro como os alvos são escolhidos e sua relação com a mensagem das obras. Estamos entrando no sentido que o artista dá a cada lugar.

Juntando todas essas informações com a agenda de eventos da região é possível associar quais ocorreram nos mesmos dias e em horários próximos, somando a eles o tempo médio de deslocamento com o meio de transporte mais provável, estamos chegando mais perto do suspeito.

Episódio 2: A rede terrorista

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O mundo está em choque com um ataque terrorista das maiores proporções matando milhares de pessoas. O chefe de um clã do oriente médio assume a autoria e ameaça realizar novos atentados.

O governo declara que sua maior prioridade é chegar aos responsáveis. A lista de mais procurados é atualizada e o alvo número um é o chefe do clã.

É certo que junto com o planejamento dos ataques ele também preparou para si um bom esconderijo. É aqui que entra o Geographic Profiler, que logo parte para suas deduções.

Onde pode se esconder um homem com mais de sessenta anos, duas esposas, cinco filhos, assessores, empregados domésticos, seguranças?

Seu rosto agora é conhecido em todo mundo. Ele precisa estar entre pessoas que compartilhem de sua causa, não poderá ir para longe de sua terra. Há um prêmio por informações que leve à sua captura, portanto terá que tomar muito cuidado para não ser reconhecido.

Sua organização terrorista segue em ação e ele precisa de acesso a uma rede de comunicações para comandá-la. Sua saúde não é boa, ele precisa de remédios e cuidados médicos especializados. Impossível fazer isso escondido numa floresta ou em cavernas.

Só resta um tipo de esconderijo, em meio à multidão, num lugar grande o suficiente onde seu grupo passe despercebido e dê acesso aos recursos de que ele precisa, uma cidade. Nesta cidade ele irá procurar por uma casa, já que num prédio seria facilmente notado pelos vizinhos. Esta casa teria que ser grande, com muros altos e muita privacidade.

Agora que temos um perfil completo é hora de partir para os mapas e procurar pelas cidades que sejam grandes o suficiente, nessas cidades procurar pelas casas com o perfil e marcá-las para abordagens de campo que avaliem o quanto elas são o provável esconderijo do criminoso mais procurado do mundo.

Episódio 3: O caso Evandro

Fenômeno de audiência em podcast, a obra de Ivan Mizanzuk é imensa em detalhes sobre os terríveis acontecimentos de Guaratuba-PR, tendo inclusive um mapa da cidade com as ocorrências marcadas. Mas foi sua versão para a TV que chamou a atenção de nosso Geographic Profiler, que logo passou a investigar esse caso.

O nebuloso caso tem muitos suspeitos, entre eles o advogado Frederick Wassef.

Pessoas foram julgadas e condenadas, confissões extraídas sob tortura e a grande possibilidade de os responsáveis por este crime brutal terem escapado enquanto a sociedade mergulhou num transe coletivo anti-satânico.

Partindo da fórmula de investigação geográfica vamos reavaliar todas as evidências do caso.

Guaratuba é uma cidade isolada no litoral paranaense, tendo um acesso por balsa à cidade de Matinhos e um acesso rodoviário até a cidade de Guaruva, caminho esse onde existem muitos outros acessos e sítios.

O corpo foi encontrado num matagal que ficava ao final de uma rua deserta, ainda assim próximo a área urbana da cidade. Sem sinais de que o assassinato tenha acontecido ali. Indício de que o autor queria que o crime fosse descoberto em todas as suas nuances horripilantes.

Os principais suspeitos:

Praticantes de religiões de influência africana que atuavam como artesãos.

Esposa e filha do prefeito da época.

Todos eles alegam terem sido torturados num sítio na localidade de Cubatão, quase em Joinville.

Conhecendo o perfil de atuação típica de criminosos e a suposta motivação de ritual satânico, as dúvidas são:

Por quê expor o corpo após o ritual, sendo que ele poderia ter sido facilmente ocultado nas vastidão das estradas, matagais, rios e mar?

Como pessoas com o rosto totalmente conhecido cometeram um crime onde poderiam ser facilmente identificadas?

Alega-se que o ritual teve lugar numa empresa da família do prefeito. Mais um sinal contraditório no que se refere ao típico comportamento de distanciamento de ambientes familiares para atuação criminosa.

As respostas possíveis são:

Os suspeitos são inocentes. A grande distância entre a cidade de Guaratuba e o sítio de Cubatão são equivalentes ao crime de tortura imputado à polícia.

O criminoso não era conhecido em Guaratuba, mas conhecia a cidade o suficiente para saber que a rua era deserta, sendo um bom lugar para despejar um corpo sem ser notado.

Pela regra inversa da localização, o criminoso escolheu esse lugar por ser distante de sua casa, para não levantar suspeitas sobre si e, quem sabe intencionalmente, direcioná-las a outros. Daí o motivo para a exposição do corpo em lugar ermo, mas encontrável.

O meio de transporte mais provável é um carro.

O sequestro aconteceu pela manhã numa circunstância casual, sinal de que criminoso não escolheu o lugar ou a vítima antecipadamente e não tinha medo de ser reconhecido. As demais atividades do criminoso são noturnas.

A barca para Guaratuba é um lugar público e confinado, fugir por ali seria muita exposição.

O melhor caminho de fuga seria a estrada para Guaruva ou Itapoá, possível localização do esconderijo.  Nenhuma linha de investigação da época foi nessa direção.

Episódio 4: Esconderijos de Lázaro

Um bandido da pior espécie, capaz de todo tipo de mal comete crimes em série atraindo para sua captura um aparato com quase 300 policiais. A operação para capturar Lázaro foi tão custosa que está sob sigilo.

Tamanha cobertura da mídia chamou a atenção do Geographic Profiler que refletiu sobre os fatos.

Em princípio a polícia alegava que Lázaro dominava aquele território, podendo dormir em árvores e se alimentar de pequenos animais. Acontece que, por algumas vezes, ele solicitou que suas vítimas o alimentassem, sinal de que não se alimentava tão bem no meio do mato.

A própria ideia de que alguém poderia se esconder sozinho por tanto tempo está sob suspeita, nessa linha Lázaro supostamente faz parte de uma organização. O objetivo da organização não é claro, uma vez que o bandido cometia violência contra pessoas. Talvez uma seita sádica, mas a experiência aponta que isso é improvável.

Crimes contra pessoas são mais comuns em cidades grandes, densas e impessoais. Os crimes mais comuns no campo são contra a propriedade. Lázaro inverteu essa lógica e levou terror a lugares que se orgulhavam da tranquilidade. Os crimes praticados por Lázaro são comuns nas cidades grandes.

As longas buscas por Lázaro apontaram a ineficiência que a abordagem urbana tem no campo. Policiais, carros e helicópteros são recursos úteis para as cidades, o amplo território rural tem suas particularidades.

A hora da onça beber água

Se estivesse morando no mato, Lázaro, mais do que caçar animais silvestres, teria que se manter hidratado. Montar campana em lugares com água e seus acessos é uma antiga técnica de caça, mas desconhecida pelo time de policiais da cidade grande.

O crime na cidade já está bem delimitado, sendo a estratégia mais comum o confronto. Sempre nos mesmos lugares, contra os mesmos tipos. O crime prospera nessas áreas desorganizadas, onde crescem pessoas sem perspectivas que, desde o início de suas vidas, são submetidas às organizações locais.

Lázaro se deslocava a pé, agia no período noturno, escolhia suas vítimas após vigiá-las por pouco tempo, estando sujeito às circunstâncias e à oportunidade. Seu comportamento indicava desequilíbrio mental grave.

Ao fim, a operação de captura foi espetacularizada e sua prisão passou a ser disputada como troféu.

Referências

Shaw, C. R., & McKay, H. D. (1942). Juvenile delinquency and urban areas. University of Chicago Press.

MORAES, Ademárcio de. Investigação criminal de homicídios. Brasília : Ministério da Justiça, Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), 2014.

SOARES, Maurilio Jose Barbosa. Mortalidade dos jovens e a violência no Nordeste brasileiro: uma abordagem multinível utilizando os dados do censo demográfico de 2010, Universidade Estadual de Campinas, 2016.

ISP Geo –  Instituto de Segurança Pública do Rio