João Caetano
em
Aug 10, 2021
O despertar das cidades-dormitório

Para você que começou por aqui, essa é a série Revisitando previsões, que retorna a artigos que foram publicados em meados de 2020. No artigo anterior falamos da nova Classe Criativa. Agora vamos falar das geografias que estão sendo criadas pela emergência dessa nova classe social. Tópico coberto pela primeira vez no artigo Usando a Villa XP para falar de cidades.

Diversas notícias dão conta da migração do centro das grandes cidades para seus entornos. Um movimento que ganhou força com as políticas de trabalho remoto, ao liberar diversos profissionais para viver com suas famílias no interior, em busca de mais qualidade de vida.

O sonho da casa própria, num condomínio próximo às capitais, repete no Brasil de 2020 o formato consagrado na década de 1960 nos Estados Unidos, o subúrbio. Lá o carro e a highway faziam a conexão casa-trabalho, agora a internet assume integralmente esse papel.

As obras da Villa XP seguem a todo vapor e, ao que parece, outras empresas já decidiram seguir rumo ao interior. Todos em busca do profissional super qualificado que escolheu essa região para se estabelecer em condomínios, que movimentam o conjunto de cidades pacatas no entorno de 100 km de São Paulo, conhecidas por seus refúgios de final de semana, como cinturão dos aposentados ou por suas grandes universidades.

A ideia de home office, que une espaços como casa e trabalho, reúne também o próprio tempo, que era dividido entre semana e final de semana, trabalho e aposentadoria. Levando negócios para essas geografias originalmente voltadas ao ócio.

Viver é mais que morar.

Já se fala em escassez de terrenos, valorização dos remanescentes, antecipação de fases, sem que se considere até que ponto essa tendência irá se manter forte.

É verdade que a vida na metrópole pode ser difícil para quem tem filhos, daí a força do apelo por uma infância ao ar livre, como muitos pais tiveram. Mensagem de todos os prospectos de todos os condomínios.

Qualidade de vida no interior é um conceito vago, mas que podemos resumir em menos violência, poluição e mais contato com a natureza. Nesse caso seria mais preciso dizer qualidade de moradia, como se morar pudesse ser a única dimensão do viver.

A expansão desse movimento é limitada por forças opostas.

A família brasileira vem encolhendo, sendo que muitos desses profissionais das Classes Criativas vivem sozinhos ou em casal sem a perspectiva de filhos.

Se a ideia de viver numa bela casa, isolada e protegida, cercada de vizinhos que pensam da mesma forma, sem eventos culturais, frequentando aniversários e festas juninas, te parece apavorante, então no condo for you.

A demanda das famílias por casas no interior ainda pode ser refreada pela retomada do trabalho presencial ou híbrido, filhos já crescidos, assim como as próprias limitações que as cidades do interior oferecem às demais profissões.

As cidades grandes, sempre tidas como vilãs, revigoram-se agora que um novo mal se apresenta, a cidade do interior. A própria ideia de uma vida completa, sem perigos, em meio à natureza, com caminhadas ao redor do lago e partidas no clube, pode sim ser desesperadora.

Ainda que a metrópole tenha seus problemas, ela segue capaz de proporcionar um sentido elevado à vida de seus residentes. Como disse Dostoiévski, “A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz”.

O que nos leva ao último artigo dessa série, São Paulo no futuro, onde visitaremos as previsões feitas em O Futuro da Faria Lima.